• Thomaz Santos

“World First, America Close Second?”

Perspectivas da política externa do governo Biden para as relações internacionais



O presente texto se propõe a analisar o quanto um governo Biden será capaz de recuperar uma imagem de liderança responsável que muitos Estados tinham dos EUA, sobretudo no que diz respeito à promoção do multilateralismo e ao avanço do Direito Internacional Público. Além disso, pensando numa perspectiva mais local, cabe ainda indagar quais efeitos essa mudança de governo trará na política externa de países aliados, sobretudo o Brasil, que desde a eleição do atual presidente, em 2018, direcionou seus esforços e discursos diplomáticas em qualquer direção apontada por Donald J. Trump. A hipótese inicial é de que testemunharemos o abandono da retórica beligerante e isolacionista adotada pelo governo Trump e um retorno a uma postura mais propensa ao diálogo, sobretudo no âmbito de organizações internacionais centrais como a ONU. Já no tocante ao Brasil, a probabilidade maior é de uma redefinição de políticas e até mesmo de nomes importantes na condução das relações bilaterais entre os dois países, particularmente no tocante a temas politicamente delicados, como a preservação da Floresta Amazônica.


No que depender das primeiras manifestações dos nomes já anunciados por Joseph Biden Jr., presidente-eleito dos EUA, para liderar a política externa estadunidense, a mudança em relação ao governo Trump promete ser grande. Em publicação recente no site do New York Times, a diplomata Linda Thomas-Greenfield, já indicada por Biden para assumir o cargo de embaixadora dos EUA junto à ONU foi sucinta, direta e clara: “a diplomacia voltou”. No mesmo sentido, Anthony J. Blinken, o indicado por Biden para assumir o cargo de Secretário de Estado, declarou que os EUA precisavam da “humildade e confiança” para depender de seus aliados. Além disso, John Kerry, veterano político do Partido Democrata que já foi candidato a presidência e serviu como Secretário de Estado durante o governo de Barack Obama, deve assumir um cargo especial no Conselho de Segurança Nacional com a responsabilidade de colocar o tema da mudança climática na agenda política do governo.


Para além da retórica, no entanto, é necessário averiguar que eventuais mudanças institucionais podemos esperar de um governo Biden numa perspectiva internacional. Segundo José Alvarez, professor de Direito Internacional da New York University, em um pronunciamento ao Conselho Canadense de Direito Internacional , um governo Biden deve conseguir realizar apenas mudanças marginais nas tendências desenvolvidas e adotadas pela gestão de Donald J. Trump, notadamente a atitude hostil quanto à República Popular da China, a rejeição a organizações e tribunais internacionais, a resistência ao uso da força em questões humanitárias, o ceticismo quando sistema global de comércio e o apoio irrestrito às políticas de segurança de Israel. Em suma, podemos esperar do governo Biden mais esforços na defesa do multilateralismo, sobretudo com uma recuperação da relação dos EUA com a ONU, e talvez um avanço na questão do aquecimento global, com possiblidade de uma retomada pelos EUA das negociações para adoção de protocolos adicionais à Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Meio Ambiente.


Finalmente, no que diz respeito ao Brasil, a possibilidade de mudanças mais concretas nas relações bilaterais entre os dois Estados é um pouco maior. Isso porque a política externa do atual governo brasileiro foi construída reproduzindo a retórica “trumpista” e estabelecendo os EUA como aliado maior e ao qual o Brasil se alinharia automaticamente em questões internacionais. Em texto publicado no segundo semestre de 2017, o atual chanceler Ernesto Araújo já elegia o então presidente estadunidense como líder e defensor do Ocidente em artigo na revista “Cadernos de Política Exterior”, publicação sob a responsabilidade da Fundação Alexandre de Gusmão (FUNAG), braço acadêmico do Instituto Rio Branco e do Itamaraty. Com base nesse texto e em artigos publicados em blog pessoal, o diplomata recém-promovido a embaixador acabou se tornando o nome preferido para o cargo de Ministro das Relações Exteriores em um futuro governo do candidato favorito ao pleito eleitoral daquele ano, o que veio a se confirmar. Desde então, Ernesto Araújo tem se mostrado um dos mais ativos e vocais defensores da retórica antiglobalista e ultranacionalista do governo brasileiro, que rapidamente se uniu a um movimento conservador internacional que parecia ter nos EUA uma liderança forte a médio e longo prazo. No entanto, a eleição de Biden pode trazer mudanças na postura da política externa brasileira, pelo menos no que diz respeito à retórica já citada e que não deve ser acompanhado pelo governo Biden a partir de 2021.


O cargo do atual chanceler pode inclusive estar em risco, mas menos por razões internacionais do que internas. O presidente brasileiro teria acenado com a possibilidade de trocar a chefia do MRE visando agradar movimentos e partidos políticos nacionais, notadamente o chamado “Centrão” e o MDB, e um dos nomes que agradaria a ambos seria o do ex-presidente Michel Temer. Todavia, é improvável que o atual mandatário brasileiro indicaria seu antecessor para um cargo atualmente ocupado por um de seus maiores defensores e talvez principal nome da chamada “ala ideológica” do governo. Em suma, o cargo de Araújo corre menos riscos que a manutenção da sua retórica já saudosa de Trump.


Uma possibilidade maior de mudança seria em outro ministério, também comandado por membro da ala ideológica e que cuida de uma pasta com bastante relevância internacional: o ministério do Meio Ambiente. Um momento particularmente relevante foi quando Biden mencionou o Brasil durante debate presidencial com Trump, e não da forma como o presidente brasileiro gostaria. Debatendo a questão ambiental, Biden comentou sobre as denúncias de queimadas na Floresta Amazônica e acenou com a promessa de investir alguns bilhões de dólares na preservação da floresta. Pode-se dizer que a fala de Biden deixou o mandatário brasileiro em polvorosa. Essa manifestação de Biden veio na esteira de diversas denúncias de queimadas que estariam ocorrendo na Floresta Amazônica sem uma resposta adequada do ministro Ricardo Salles, que inclusive foi acusado de fechar os olhos ao fogo para defender representantes do agronegócio que estariam se beneficiando do desmatamento. Embora ainda seja cedo fazer prognósticos de mudança nesse ministério, Ricardo Salles é um dos que corre mais risco de perder o cargo pelas consequências internacionais de sua gestão, e o presidente eleito dos EUA deixou isso bastante claro, como dito acima.


Em suma, essas são algumas das possibilidades de mudança que o futuro governo Biden pode trazer para as relações internacionais como um todo e para o Brasil em particular. Frise-se que esses prognósticos talvez não se confirmem na íntegra, sobretudo no que diz respeito a mudanças de nomes no caso dos ministérios brasileiros, mas é seguro ao menos afirmar que, depois de 4 anos de um governo dizendo que queria fazer a “América” grande novamente mesmo que às custas da própria estabilidade do sistema internacional, agora teremos um presidente que parece entender o real sentido e importância da diplomacia na política internacional. E em um ano tão caótico quanto este que está por terminar, isso já parece mais do que o esperado.



Thomaz Santos

Professor do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria


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